Com as câmeras de celular à postos, os jovens saíram às ruas. Cada grupo havia definido um tema e, agora, partia para as entrevistas com moradores, Poder Público, comerciantes e especialistas. Na cabeça, dúvidas, anseios e a curiosidade típica dos adolescentes. Depois do “tour” para coletar imagens e depoimentos, todos voltaram à sala de aula para editar as reportagens e formatar o programa – com direito a apresentadores e um time de correspondentes. Na pauta do dia, assuntos como preconceito, crescimento da cidade e culto à beleza. Depois do “boa noite” na bancada do telejornal, estava concluída mais uma oficina de Educomunicação.

Essa cena aconteceu em abril, em Serra do Salitre, Minas Gerais, e dá uma ideia do que transcorreu durante todo o ano também nas comunidades de Luís Eduardo Magalhães e de Campo Alegre de Lourdes, ambas na Bahia. Desde 2017, estamos investindo na Educomunicação, uma técnica que propõe a construção colaborativa de conteúdos em diversas linguagens, como uma ferramenta para potencializar o desenvolvimento comunitário nessas localidades e empoderar os moradores.

No rol de técnicas aprendidas durante os encontros, o fanzine e o jornal foram as primeiras a serem desenvolvidas. Em 2018, novas modalidades entraram em cena: vídeo, rádio, fotonovela animada e documentário. Além do público jovem em Serra do Salitre, as oficinas alcançaram outras faixas etárias nos municípios e tiveram seus objetivos moldados de acordo com as principais necessidades locais. Confira a retrospectiva das ações de Educomunicação que realizamos esse ano e o bate-papo com um dos participantes sobre as transformações que a atividade trouxe para a sua vida:

CAMPO ALEGRE DE LOURDES

Público-alvo: a comunidade em geral, professores e participantes do Diversão Não Tem Idade, grupo da Terceira Idade da Rede Social de Angico, Peixe e Região.

Técnicas desenvolvidas em 2018: rádio, TV e documentário.

Como foi: realizadas na Casa do Diálogo, que agrega as atividades do Instituto e da Rede Social, as oficinas de Educomunicação mostraram que programas de rádio e de TV podem ser realizados com ferramentas que os participantes têm à mão, como o celular. “O retorno que tivemos foi ótimo, pois eles relataram que são materiais mais fáceis de replicar e de compartilhar por WhatsApp, por exemplo, que já faz parte das suas rotinas”, diz Ana Clara Dumont, consultora e uma das ministrantes as oficinas.

Escrevendo roteiro antes da gravação do programa Sertã Solidário

A primeira rodada das oficinas, realizada no 1º semestre, atraiu muitos professores da comunidade, que viram nas capacitações a oportunidade de aprender técnicas que podem ser replicadas em sala de aula. “Percebemos que eles estão buscando novas formas de enriquecer suas didáticas”, diz Kaio Nunes, analista de Comunicação do Instituto.

Oficina de Educom com o grupo Diversão Não Tem Idade

Além das capacitações tradicionais, foi realizada uma atividade especial com os membros do grupo Diversão Não Tem Idade. Eles participaram de um bate-papo sobre a importância da escuta e do diálogo e foram convidados a gravar em vídeo depoimentos sobre suas vidas e a comunidade. “Queríamos ressaltar a importância desses relatos para preservar a história da localidade de Angico dos Dias e da região, contada por seus próprios moradores”, explica Kaio. O material editado será lançado em formato de série, em episódios, que poderão ser compartilhados por celular pelos participantes.

LUÍS EDUARDO MAGALHÃES

Público-alvo: os moradores que tiveram seus projetos selecionados pelo Ideias e Ações, edital que apoiou iniciativas sociais que podem contribuir para transformar a comunidade.

Técnicas desenvolvidas em 2018: fanzine e fotonovela animada.

Oficina de Fanzine

Como foi: em duas oficinas, os participantes aprenderam técnicas para divulgar melhor seus projetos sociais e potencializar a captação de recursos para levá-los adiante. “Passamos para eles a importância da comunicação nesse contexto de distribuir a informação sobre o trabalho que realizam”, diz Ana Clara. Na primeira oficina, realizaram um fanzine, distribuído à comunidade.

Oficina de Fotonovela Animada

Na segunda capacitação, criaram uma fotonovela animada contando a história dos projetos com técnicas semelhantes ao stop motion (fotografias em sequência). “São formas de deixar suas iniciativas mais enriquecidas e fortalecidas e divulgá-las para mais pessoas”, diz Kaio.

SERRA DO SALITRE

Público-alvo: estudantes do terceiro ano do Ensino Médio da Escola Estadual de Serra do Salitre.

Técnicas desenvolvidas em 2018: rádio e TV.

Como foi: a capacitação reuniu 30 alunos. Na primeira oficina, eles criaram um programa de TV, abordando os temas mais significativos para a sua realidade, como preconceito, oportunidades na cidade, estereótipos da beleza, entre outros. Para a oficina seguinte, fizemos uma parceria com a UNIPAM (Centro Universitário de Patos de Minas), que emprestou seus estúdios de rádio e de informática para a atividade.

Com o auxílio de professores da universidade, os alunos gravaram e editaram um programa com os equipamentos profissionais. “Percebemos que os jovens têm uma vontade muito grande de fazer coisas de forma diferente e uma preocupação legítima por uma sociedade melhor, basta darmos as ferramentas e ensinarmos a usá-las para que consigam expor suas ideias”, diz Kaio.

BATE-PAPO: GUSTAVO GUILHERME FERREIRA

Conversamos com o estudante Gustavo Guilherme Ferreira, de 17 anos, que participou das oficinas de Educomunicação em Serra do Salitre, sobre a importância desse aprendizado para a sua formação:

Como foi para você a experiência de participar das oficinas?

As experiências que eu tive foram ótimas. Consegui tirar proveito em marketing, ver como as empresas funcionam nos seus bastidores, como elas produzem seus materiais de mídia e maneiras de trabalharmos em grupo para realizá-los. Tudo foi passado para a gente por ótimos profissionais, que nunca davam nada de mão beijada. Tínhamos que produzir entre nós, o que nos estimulava. As oficinas também nos desenvolveram como indivíduos, porque os projetos eram compostos de várias etapas e cada um produzia uma delas. Quando juntava tudo dava um resultado muito legal e muita satisfação!

Quais aprendizados destacaria?

Nas oficinas de Educomunicação, percebi que para dar voz à minha opinião não preciso de muitas ferramentas. Todo o projeto era baseado em meios que a gente tem à mão, como o celular e o computador. E com eles conseguimos produzir um material legal. Se a gente conseguir aplicar isso que aprendemos, vai ser muito proveitoso para os jovens aqui de Serra do Salitre.

E o que mudou para você depois das oficinas?

Além de me ajudar na área da comunicação com as pessoas, as capacitações me incentivaram a desenvolver o meu primeiro empreendimento. Abri meu carrinho de cachorro quente, produzi sozinho todo o material de mídia e de marketing dele e fiz a divulgação pela internet. As oficinas contribuíram muito para eu saber como me comunicar, como passar as informações para as pessoas e até a maneira de tratar os clientes. Já estou com um mês de funcionamento e está indo super bem! É muito legal porque consegui aplicar na prática e dentro da minha realidade tudo o que aprendi.