
A 8 ª Expedição – São José do Rio Grande e Riachão das Neves
(26/09/2007)
Dia 28 de agosto partimos para a nossa oitava expedição. Nosso destino era São José, localizada às margens do rio Grande. Não estava em nossos planos visitar também Riachão das Neves.
Em São José conhecemos Dona Francisca dos Santos, uma senhora de pele negra, muito magra, olhos arregalados e um lenço vermelho amarrado na cabeça. Ela nos recebeu como se já nos conhecesse.
Entramos e fomos até a cozinha, onde sentamos para a entrevista. Perguntei se poderia filmá-la e ela respondeu afirmativamente com a cabeça, mas deu-me a impressão de que ela não sabia do que se tratava. Bernadete lhe perguntou a idade e ela respondeu:
- “Minha fia, não sei contar meus anos, porque meus anos foi aumentado. Eu fui registrada tá com pouco tempo. Eu fui registrada, batizada sem saber bem da minha idade. Eu não fui criada com meus pais, fui criada fora. Eu passei uma base de 9 anos aleijada, cega, não enxergava, arrastando no chão. Eu casei, depois de casada meu marido me largou”.
- “Com que idade a senhora se casou?” Perguntou Bernadete.
- “Eu casei com a idade de uns doze anos. Casei nova, novinha que eu não sabia nem o que era casamento. Eu pensava que casamento era uma coisa que a gente casava, ele lá ficava e a gente voltava pra casa dos pais, como eu voltei mesmo e não queria mais viver com ele”.
- “Quantos anos ele tinha?”
- “Ele tinha 8 anos a mais, ele tinha 20. Aí eu fiquei cega, aleijada, arrastando 9 anos”.
Neste momento ela mostrou as cicatrizes das feridas nas mãos para Bernadete e disse que são de tanto arrastar.
- “Eu arrastei, arrastei, não achava nem médico, nem doutor pra me curar, só vim curar depois que ele me largou, aí eu fiquei curada”.
- “Quem curou a senhora?”
- “Quem me curou foi Jesus. Esta fé veio pra mim eu dormindo em riba de uma cama. Eu dormindo, quando veio esse reino muito bonito, aí eu fui e recebi. Aí vi uma pastora muito bonita, ela jogou a coroa em cima de minhas pernas e disse: olha, você tome conta da coroa. É certo que eu assustei e ela disse que eu chamasse a pessoa mais pobrezinha pra receber aquela coroa do nascimento de Jesus e quando ele nascer é pra ele saber o reboliço do mundo o nascimento de Cristo”.
Bernadete perguntou se ela teve esse sonho durante o dia ou à noite. Ela respondeu que à noite.
- “E a senhora estava sozinha?”
- “Só. Só com Deus”.
- “Já tinha largado o marido?”
- “Já. Tava dormindo com Deus. E nesse sonho, eu enxergava e via a festa, divulgava pro povo. Divulgando, divulgando... Aí, quando o dia amanheceu eu levantei, num fiz nem café. Digo meu Deus, o povo aqui nenhum é pobre, tem que ser uma pessoa pobrezinha, que não tem nada pra receber. Uma festa bonita dessa! Mais uma coisa mais linda do mundo! Aí eu saí, alembrei que tinha um homem que morava ali. Aí eu fui até lá, cheguei lá e falei com ele. Aí eu curri na carrera fui na casa de uma moça, que eu não sei - não sabia - lê, né! Mandei ela copiar os canto porque senão... se sai de minha cabeça, né!”
Foi assim que conhecemos Dona Francisca. O tempo passou rápido e levantamos para nos despedir dela. Foi como entrar num cinema e assistir um filme com um enredo meio confuso e muito sofrido.
São José foi mais uma comunidade que surgiu na beira do rio Grande. Por ser um rio caudaloso, teve o privilégio de trazer e levar as barcas carregadas de alimentos, potes e notícias de Barra e Juazeiro. A vida era em função do rio, muito mais do que hoje, já que atualmente existem os veículos terrestres e as barcas perderam a sua utilidade.
Dona Francisca nos faz refletir sobre o que somos capazes de criar. Eu respondo: tudo! O bem e o mal.
Fernanda
Aguiar
Advogada
e consultora ambiental da Religare e especialista em G.R.H.
e Educação Ambiental
Integrantes: Bernadete de Paula, Fernanda Aguiar e Harue Ariga