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A 9ª Expedição - Santa Rita de Cássia
(23/10/2007)

Dia 30 de setembro partimos para a nossa nona expedição. Sugeri que entrevistássemos uma senhora chamada Dona Agostinha da Rocha Medrado que vive às margens do rio Preto.

Fomos muito bem recebidas. Conhecemos sua casa de adobe, o chão de tijolinho queimado, aconchegante e fresca. Uma casa do jeitinho que quero construir. Quando eu disse isso, Dona Agostinha deu uma gargalhada. Da sala para a cozinha, onde fomos tomar água em caneca de alumínio. O fogão de lenha estava aceso e um tacho enorme sobre ele, cheinho de cajuzinho do mato, estava ferventando. Depois, sentamos na varanda da casa, onde havia alguns arreios pendurados, uma rede e começamos a conversar.

Dona Agostinha nos contou que tinha 12 anos quando se casou e seu marido tinha 27 anos. Disse que “antigamente era padre que casava, não tinha esse negócio de civil não. Era o padre! Hum...”

- E como era a festa de casamento? Perguntou Bernadete.
- Com dança, acordeon, naquele tempo a gente chamava de sanfona.
- Tocava sanfona a noite toda! Exclamou Bernadete.
- “É! Vinha os tocador! E gente dançando!”
- E o que servia na festa? Continuou Bernadete.
- “Pelo menos aqui em casa foi assim... Era um padre só pra todo o arraiar, hoje em dia é comunidade.

De Mansidão, Santa Rita, Formosa, um padre sozinho muntado num burro e um mininin na carga. Chegaram aqui de noite. Tinha que confessar os noivo, né? Porque no outro dia ia casar. Era umas 9h quando esse padre chegou. Disse que não era pra ter festa não. Ele perdeu na estrada e disse que era pra confessar no outro dia. No outro dia de manhã era café com biscoito, requeijão, toda espécie de bolo e bolacha que mãe fazia. Se matava galinha, bode, carneiro, mataram uma vaca, aqueles pedação de carne. Depois da missa foi o café e só comungava em jejum. Depois da missa o padre foi embora, mas ele ainda almoçou. Aí o pau quebrou! Daí praqui só cavalo. Tudo cheio”. Dona Agostinha apontou o pátio de fronte à sua casa demonstrando onde os cavalos ficaram.

- O padre fazia a celebração do casamento? Perguntou Bernadete.
- “Sim”.
- A senhora vestiu de noiva? Continuou.
- “Sim. Eu tinha 12 anos de idade. Acredita?”
- A senhora conhecia ele há muito tempo?
- “Eu já conhecia ele há pouco tempo. Ele era daqui dos Medrado. Quando a mãe dele morreu ele foi pra Barra, depois ele veio praqui. Veio ser vaqueiro bem aqui”.
- A senhora namorou ele muito tempo?
- “Não. Mamãe não deixava esse negócio de namorar. Eu, sinceramente, não queria casar, era muito nova. Mamãe botou nós pra aprender a cozinhar, fazer bolo, bordar, costurar... minha mãe disse que é bom casar, eu já to velha, você não tem pai, a condição é pouca...”

Dona Agostinha foi buscar as fotos e, usando óculos, mostrou também o tecido que pintou e a costura que ainda pratica.

Ao comentar que gosta de ler, dona Agostinha levantou-se novamente e buscou um livro antigo, de páginas amareladas, chamado “Catecismo ilustrado”. Nós ficamos admiradas, pois, continha palavras em latim.

Dona Agostinha disse que antigamente passava sebo no cabelo para ficar macio. “Pegava o sebo, deixava no sol, colocava óleo de mamona, flor de laranjeira e cachaça”.

Perguntamos sobre as barcas e ela disse que sente saudades das barcas e de todo o “tempo véio”. Voltamos à cozinha, o doce estava pronto!

Estava entardecendo e tínhamos que tomar banho. Tiramos nossas bagagens da caminhonete e levamos para o quarto reservado para nós. Dona Agostinha não permitiu que dormíssemos em barraca, disse que ficaria ofendida se não pernoitássemos dentro de sua casa. Assim foi feito.

A noite logo chegou, o céu estava azul e rosa. O rio Preto passa nos fundos da casa de Dona Agostinha, de longe dá pra ouvir a roda d’água.

Jantamos baião de dois ou casadinho – arroz com feijão cozidos numa mesma panela, temperado com bastante quentro. A nora de Dona Agostinha fez o jantar. Estava uma delícia. Comemos cajuzinho de sobremesa e tomamos vinho de caju. Depois, ainda sentados na sala, à luz de bateria de carro, ficamos conversando por horas. Dona Agostinha nos mostrou seu santuário e uma linda santinha pintada à mão, feita de uma madeira muito leve.

Dormimos todas no mesmo quarto. Eu sozinha numa cama de solteiro e Harue e Bernadete numa cama de casal.

Assim que amanheceu, eu e Harue saímos para fotografar e filmar. Chegamos na beira do rio e ouvimos muitos pássaros diferentes. Até o som da roda d’água estava em harmonia com a sinfonia matinal.

                                                                                              Fernanda Aguiar
Advogada e consultora ambiental da Religare e especialista em G.R.H. e Educação Ambiental

Instituto Lina Galvani . Avenida Onófrio Milano, 589 . Jaguaré . São Paulo . SP . Tel: +55 11 3767-0040