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A 10ª Expedição – Angical e Missões de Aricobé
(28/11/2007)

Dia 29 de outubro foi o dia marcado para a nossa décima expedição com o objetivo de conhecermos Missões de Aricobé.

Durante o percurso entre Barreiras e Angical eu li um trecho do livro da historiadora Ignez Pitta que conta a história da colonização do Oeste Baiano. O livro prescreve que em 1707 os padres Capuchinhos chegaram na aldeia dos índios Aricobés, atual Missões de Aricobé, depois cederam lugar aos Franciscanos, os quais iniciaram um trabalho educativo por toda a região.

Chegamos em Angical às 9h30min e paramos numa padaria para tomarmos café. Perguntamos sobre alguém que pudéssemos visitar ou artesanato para conhecer. Um rapaz que estava na padaria nos indicou um lugarejo de nome “Covas”. Lá fazem potes, panelas e vasos de barro. Ótimo!

Chegamos numa comunidade simples, avistamos duas senhoras preparando a terra, crianças jogando bolinhas de gude e outras jogando futebol. Paramos e perguntamos a duas crianças onde vendiam potes de barro e as mesmas nos orientaram.

Entrevistamos Bete e Renato, dois irmãos que ainda preservam a herança de elaborarem potes de barro como os índios faziam. Pedimos para conhecer o processo e nos levaram até uma casa de adobe antiga aonde vimos muitos potes já assados no chão, prontos para serem vendidos. No cômodo ao lado estavam os utensílios para a elaboração dos potes.

Renato nos contou que ajudava seu pai a preparar a massa e depois que o pai morreu passou a fazer sozinho. O rapaz passou a massa para a irmã, a qual já estava sentada numa tábua no chão, com uma perna cruzada. Ela pegou o barro e começou a bater com a mão e colocou numa forma redonda também de barro já assado. Trabalhando com as pontas dos dedos foi subindo as paredes do pote.

- “Eu convivi junto com meu pai e aprendi a fazer potes, é desta arte que eu vivo, eu e meu irmão”.
Perguntei quem ensinou seu pai e ela disse que não sabe. Questionei se poderiam ter sido os índios, ela disse que talvez.

O chão da casa desgastado revela as marcas do tempo, formas redondas e profundas, onde giravam os potes.

Bete nos explicou que os potes são feitos de uma mistura de barros. Há um barro vermelho, fino, originado de tijolinhos moídos, pisado no pilão, e outro barro tirado da lagoa.

- “Eu faço umas 10 peças por dia porque tenho que fazer comida e arrumar a casa. Meus filhos não sabem fazer pote. Aqui só eu e meu irmão que faz pote e vende aqui mesmo na comunidade”.

A mãe do casal de irmãos apareceu e disse que o marido “aprendeu por dote dele mesmo, disse que a mãe dele ganhou neném e não tinha panela pra cozinhar, aí ele pegou o barro colocou numa caia de tijolo, queimou e aí foi cozinhar”.

Bernadete perguntou qual é a importância dos potes pra eles e disseram que:

- “Ah, eu acho que pra mim mesmo é muito importante e pra outras pessoas também”.
O irmão interveio e disse que “é importante pra quem não tem geladeira, porque deixa a água fria”.
- Também usam como panela? Perguntou Bernadete.
- “Sim, também guarda leite”.
- A senhora gostaria que seus filhos aprendessem a fazer pote?

- “Eu gostaria muito, pra mim mesmo seria um grande prazer se eles estivessem aqui junto comigo, trabalhar e aprender. Ave Maria eu tenho muito prazer de saber e ter essa arte”.

Bete formava tiras de barro e acrescia à estrutura do pote, dando-lhe forma. Às vezes pegava um pedaço de cabaça e alisava o pote por dentro, outras vezes pegava um sabugo de milho para alisar do lado de fora. Ela disse que o barro amarelado para fazer os desenhos no pote é outro barro. Disse também que os potes ficam umas doze horas no forno, arrumados em cima de uma mesa, um dentro do outro. Tampam com uma telha e deixam assando. “Dá pra assar uns 40 potes por vez”.

Enquanto conversávamos com Renato, Bete dava acabamento ao pote com uma varinha, depois com uma lâmina cortou a boca do pote.

Renato disse que a lenha usada para assar os potes é comprada na gameleira porque está ficando escassa.

Bete deu acabamento no pote com um couro de veado. O pote era virado com uma mão, enquanto a outra dava o acabamento.

- “Pronto, o pote está pronto!”

Renato explicou que pra tirar o pote da fôrma tem que esperar “croar" e que o pote não gruda na forma por causa da mistura de barro vermelho colocado na fôrma.

Fomos conhecer o forno e Renato explicou que tiveram que fazer um forno novo mais escondido porque estava acontecendo umas coisas estranhas. Disse que “isto aqui tem que ter muita ciência, sabia?”

- “Se a pessoa tiver o olho esquisito, chega aqui e o forno desaba aqui, é meio mundo de frescura isso aqui. Teve uma época aqui que o forno estava estourando, parecia que tinha era foguete aqui, era estouro!”

Bernadete perguntou:
- O forno estoura, faz rachadura e cai?
- “Exatamente”. Respondeu Renato de dentro do forno, enquanto nós analisávamos a estrutura do mesmo.
- “Ainda tem o problema da lua ainda, lua nova é prejuízo total!”
- “Isso tudo você aprendeu com seu pai?” Perguntou Bernadete.
- “Exatamente”. Respondeu o rapaz.
- “Aqui a gente ascende o forno, segura o fogo na boca, depois empurra a brasa para o fogo subir e assar os potes. É complicado!” Exclamou Renato.
- “Era a profissão do velho, pra não deixar cair nós pegamos e tá servindo, não ganha muito dinheiro para embolar, não, mas...”
- Vocês estão de parabéns! Eu disse.
Antes de partirmos, compramos alguns potes, tiramos fotos e agradecemos toda a atenção.
Saímos de Angical e ainda fomos para Missões, onde tivemos gratas surpresas.

                                                                                              Fernanda Aguiar
Advogada e consultora ambiental da Religare e especialista em G.R.H. e Educação Ambiental

Instituto Lina Galvani . Avenida Onófrio Milano, 589 . Jaguaré . São Paulo . SP . Tel: +55 11 3767-0040