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A 12ª Expedição – Entrevista com a historiadora Ignez Pitta
(24/01/2008)

Para finalizar nossas expedições, ligamos para Ignez Pitta e lhe perguntamos se nos concederia uma entrevista. Precisávamos terminar a nossa viagem ouvindo as palavras da historiadora que nos incentivou a conhecer alguns lugares por meio de seu livro.

Marcamos o dia e fomos num fim de semana a Barreiras ao encontro de Ignez. Ela reside na parte histórica da cidade, é claro, numa casa aconchegante cheia de plantas e animais. Fomos super bem recebidas.

Segue assim, um pequeno trecho da entrevista, ou melhor, da aula.

- “A nossa região teve sua certidão de nascimento na carta de doação da Capitania Hereditária de Pernambuco que foi doada por Dom João III a Duarte Coelho Pereira e assinada na cidade de Évora em 10 de março de 1534. De lá pra cá vocês viram uma história de muito trabalho e construção do progresso, mas tudo isso baseado em um binômio: chuvas regulares e rios perenes. Se nós destruirmos o nosso meio ambiente, destruirmos as veredas, desmatarmos as nascentes, acabarmos com as matas ciliares, nós estaremos secando os nossos rios e diminuindo as chuvas. As chuvas já estão bem menos aqui. Então toda esta história que começou em 1534 e veio até hoje ela pode acabar da forma mais triste possível. Nós poderíamos nos tornar parte do semi-árido nordestino, onde os rios secam, correm apenas quando chove e chove muito pouco. Nós ficaremos numa região semi-desértica, vamos nos escrever para receber o cartãozinho da fome zero, porque se não chove, se não tem rio, se não planta e se não colhe você vai ter que viver de favor. Então a nossa maior preocupação aqui tem que ser na manutenção das chuvas, dos rios, das matas, do nosso meio ambiente”.

- “Agora sobre o Estado do São Francisco. A nossa região pertencia a Pernambuco e Pernambuco nos perdeu em duas revoluções para sair do Brasil se tornando um país independente. Ainda no tempo do Brasil Colônia, em 1817, os pernambucanos se uniram a pessoas de Estados vizinhos e proclamaram a República com o nome de confederação do Equador. Dom João VI que neste tempo morava aqui no Brasil mandou soldados para Pernambuco, vencemos os pernambucanos pelas armas e condenou à morte todos os líderes dessa revolução da confederação do Equador. E para enfraquecer Pernambuco, tirou esta parte, justamente a nossa, que limitava com Minas Gerais, que era a comarca do rio São Francisco e anexou a Minas Gerais. Minas não pôde administrar e voltou pra Pernambuco pra administrar e cobrar imposto pro rei. Quando chegou em 1824, já com Dom Pedro II, os pernambucanos fizeram nova revolução para sair do Brasil, proclamaram a república de novo, Dom Pedro II tornou a mandar soldados, venceu os pernambucanos, condenou a morte todos os líderes, inclusive Frei Caneca, Frei Joaquim do Amor Divino Caneca e novamente cortou esta região e novamente ligou a Minas Gerais. De novo os mineiros não administraram, então ofereceu aos baianos, a Bahia aceitou. Então em 1827 foi desanexado a Minas Gerais e anexado à Bahia. Então você vê que nós não temos origem em comum da Bahia, não temos tradição, não temos cultura e principalmente não temos a atenção da Bahia. A nossa região com toda a sua potencialidade se ela conseguir se tornar um estado e ela tiver um governo local, atento e comprometido, ela poderá, ao mesmo tempo que preserva o seu meio ambiente, poderá desenvolver toda a sua potencialidade. Então estou convocando vocês para se unirem a nós na construção do Estado do rio São Francisco. Logo que foi unida à Bahia, em 1827, foi um trauma muito grande para esta região, vocês imaginem três anos, passar de Pernambuco pra Minas, de Minas pra Bahia, naquele tempo não era Estado, era província. Então começou a surgir o desejo de emancipação. Um deputado Pernambucano chamado Luís Fernandes, ele entrou com o primeiro projeto de criação da província do rio São Francisco na antiga comarca do rio São Francisco, mas este projeto não tramitou porque os deputados da Bahia lá na corte do Rio de Janeiro fizeram uma tal obstrução e depois houve outros, outros e outros, mas não conseguia nem tramitar. Pela primeira vez está tramitando um projeto que deu entrada na Câmara em 1998, da autoria do deputado Pernambucano, claro que nenhum deputado baiano vai fazer este projeto, Gonzaga Patriota, ele vem tramitando, já foi aprovado numa comissão, tá agora na divisão da Comissão da Amazônia e divisão territorial e nós precisamos nos unir, os 35 municípios, para conseguirmos pressionar os deputados para votar e depois vai ter o plebiscito nos 35 municípios e essa é uma hora delicada porque é claro que a Bahia vai colocar Maria Betânia, Gal Costa, Caetano Veloso lá falando: ‘não vamos dividir a Bahia’, nós nunca fomos legitimamente da Bahia. O ato de 1827 fala duas vezes a palavra provisório, que está sendo, a Comarca do rio São Francisco, ligada provisoriamente a Bahia e que depois haveria uma reorganização das províncias do império. Então uma coisa legítima nunca foi. Foi um ato arbitrário de tomar de Pernambuco pra enfraquecer os pernambucanos, ligar a Minas, Minas não pode administrar, ligar provisoriamente a Bahia e acrescentar que vai haver uma reorganização. Então nós não vamos dividir a Bahia, nós vamos reivindicar aquilo que é nosso e que legitimamente nunca foi da Bahia. Nós vamos perder as origens baianas? Não. Nós não tivemos essas origens, nós não temos tradições baianas, nossas tradições são nossas, da Comarca do São Francisco.

                                                                                              Fernanda Aguiar
Advogada e consultora ambiental da Religare e especialista em G.R.H. e Educação Ambiental

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